47 Blažka Müller* Universidade de Liubliana PROLEPSE: O FUNCIONAMENTO REFERENCIAL E DISCURSIVO DE ALGUNS PARADIGMAS VERBAIS EM PORTUGUÊS EUROPEU 1 NOTA INTRODUTÓRIA A partir da análise de oito sequências textuais do texto narrativo o Memorial do Convento (MdC) de José Saramago1, é objetivo deste artigo descrever as caraterísticas do funcio- namento referencial e discursivo de algumas formas e construções verbais do português europeu entendidas como marcas de prolepse. Assim, a ocorrência de formas de futuro simples do indicativo, do presente do indicativo, do futuro do conjuntivo e da construção haver de + infinitivo, nas sequências em análise, podem ser consideradas como desenca- deadoras de novos valores, inerentes às particularidades textuais que as integram. Ora, e no seguimento de Genette ([1972] 1995) e Miklič (2005, 2008), mas tam- bém de Markič (1997, 1998a, 1998b, 2012) e Adam & Lorda (1999), mostrar-se-á de que forma a prolepse é uma estratégia caracterizadora da narrativa, dando-se relevo às formas verbais quer enquanto responsáveis pela construção desse processo, quer como marcadoras das categorias de tempo e modalidade. Em termos formais, este artigo organiza-se a partir secções: na primeira secção são discutidos alguns aspetos das propostas associadas aos conceitos de temporalidade e de anacronia dentro da narrativa, a partir, sobretudo, de Genette ([1972] 1995) e Miklič (2005, 2008); na segunda secção, dar-se-á relevância ao tempo do discurso ou de nar- ração no MdC, visando-se constituir um marco relevante para a operacionalização de uma análise de papéis discursivos das formas e construções do futuro neste texto; na terceira e última secção, apresentar-se-á a análise de oito sequências textuais que atra- vés das formas do futuro evidenciam a construção linguística da anacronia associada à prolepse. 2 A ANACRONIA DENTRO DA NARRATIVA Como se sabe, um dos autores mais influentes que defendem o estatuto independente da temporalidade da narrativa é Gerard Genette. Ao considerar três aspetos da realidade * blazka.muller@ff.uni-lj.si 1 É importante ser sublinhado que, em nenhum momento, é a minha intenção empreender uma análise literária do discurso narrativo na obra que serve como fonte para as sequências analisadas. DOI: 10.4312/linguistica.64.2.47-59 48 narrativa2, Genette (Genette [1972] 1995: 31- 84) centra a sua proposta articulação temporal, e já não na lógica da narrativa: Estudar a ordem temporal de uma narrativa é confontar a ordem de disposição dos acontecimentos ou segmentos temporais no discurso narrativo com a ordem de sucessão desses mesmos acontecimentos ou segmentos temporais na história, na medida em que é indicada explicitamente pela própria narrativa ou pode ser inferida deste ou aquele indício indirecto. (Genette [1972] 1995: 33) A ordem cronológica das ações na sequência narrativa pode corresponder à lineari- dade do texto, ou, seguindo Genette ([1972] 1995: 32), »[...] com a famosa linearidade do significante linguístico«. Porém, na maioria das vezes, nas narrativas, a ordem cro- nológica fica deformada. Por sua vez, as modalidades básicas (ou prototípicas) da desordem ou »[...] diferen- tes formas de discordância entre a ordem da história e a da narrativa« (Genette [1972] 1975: 34) foram denominadas, por este autor, anacronias3. Assim, como preconiza Genette (ibid.), o termo anacronia refere-se à [...] ordem de disposição dos acontecimentos ou segmentos temporais no discurso narrativo com a ordem de sucessão desses mesmos acontecimentos ou segmentos temporais na história, na medida em que é indicada explicitamente pela própria narrativa ou pode ser inferida deste ou aquele indício indireto. (Genette 1975: 33) A anacronia é, deste modo, definida como todo tipo de alteração da ordem dos even- tos da história, referindo-se às ruturas na cronologia duma história. Em termos gerais, gera-se uma incidência sobre a ordem temporal de uma narrativa, ou seja, confrontam- se os acontecimentos temporais no discurso narrativo com a ordem de sucessão desses mesmos acontecimentos temporais na história. Os dois procedimentos opostos da distorção temporal interpretado como anacro- nia, tal como foi entendida por Genette ([1972] 1995), são a prolepse (ou antecipação) e analepse (ou retrospeção ou retrocesso). Deste modo, para Genette prolepse é um mecanismo narrativo que consiste em contar ou evocar de antemão um acontecimento ulterior; analepse é, por seu lado, toda a evocação subsequente de um acontecimento 2 Salientando a delimitação de conceitos que fazem parte da perspectiva de Genette, é relevante referir que este autor propõe diferenciar a ‘historia’ como significado ou conteúdo narrativo, ‘narrativa’ propriamente dita como significante ou enunciado, discurso ou texto narrativo em si, e ‘narração’ como ato narrativo produtor e, por extensão, »o conjunto da situação real ou fic- tícia na qual toma lugar« (Genette [1972] 1995: 25). História, narrativa e narração são, assim, níveis de consideração de um mesmo objeto a que Genette chama a ‘realidade narrativa’. 3 A localização dessas anacronias narrativas postula implicitamente a existência de uma espécie de grau zero, que seria um estado de perfeita coincidência temporal entre a narrativa e a histo- ria. Porém, nas palavras de Genette, »[...] tal estado de referência é mais hipotético que real« (Genette ([1972] 1995: 34). 49 anterior a um determinado ponto da história da narrativa. Ou seja: analepse é o movi- mento de antecipação de eventos cuja ocorrência, na história é posterior ao presente da ação. Este movimento é realizado através do discurso. É importante referir que Genette ([1972] 1995: 65) afirma que a prolepse temporal é manifestamente menos frequente do que a figura inversa, a analepse. Como se deduz da obra de Genette ([1972] 1995) e também já de Weinrich (1964) e do mesmo modo das hipóteses propostas por alguns dos seus sucessores (cf. Reyes (1984), Adam & Lorda (1999)), a narrativa pode, assim, ser definida como uma se- quência duas vezes temporal: por um lado há o tempo da coisa-contada, o significado, e, por outro, o tempo da narrativa, o significante. É esta dualidade que possibilita as distorções temporais4 que podem ocorrer num texto. Ao descrever as anacronias sob o ponto de vista da semântica, Genette ([1972] 1995), fá-lo sem se preocupar com os mecanismos de realização linguística que marcam as diferentes ‘ordens’ temporais, ou seja, a ordem da história e a ordem da narrativa. Miklič define a prolepse enquanto estratégia narrativa, em línguas diferentes como as línguas românicas (sobretudo em italiano e espanhol), mas também em esloveno e alemão (Miklič 2008a, 2008b, 2012, e.o.). A denominação desta possibilidade expres- siva do repertório retórico é, de acordo com esta autora, também flash forward (FF) (Miklič 2005: 240, 2012: 107, e.o.). Miklič (2008b: 298) delimita o caso prototípico do conceito do FF como a situação quando o narrador, a certo ponto da história ‘central’ interrompe a narração e informa sobre um facto vindouro mais a frente no tempo e fora do foco narrativo para recomeçar depois a narração. O narrador, de acordo com esta autora, para advertir o leitor desta oposição (foco vs. periferia narrativa), escolhe uma forma verbal que marca os conteú- dos semânticos modais e/ou temporais. Estas marcas linguísticas são, como preconiza Miklič (2008b: 298), o condicional (simples ou composto), o futuro e as perífrases verbais prospetivas (cf. Markič (1997), (1998a), (1998b), (2012) e em Kalenić Ramšak, Markič, Pihler, e Šabec (2013)). As caraterísticas do FF prototípico na vertente semântica são, de acordo com Miklič (2008b: 299), três. Em primeiro lugar, a ação realizada no passado. Depois, a oposição entre as ações que pertencem ao foco narrativo e às ações periféricas, temporalmente posteriores à história ‘central’. A terceira caraterística do FF prototípico, como aponta Miklič (ibid.), é a importância secundária de ações marcadas como posteriores. Na superfície linguística, no caso do FF prototípico, segundo a autora (ibid.), é notável a presença de um adjunto adverbial temporal. Também é notável uma eventual marca sintática (e. g. uma construção relativa) e, na leitura, flexão da voz (Miklič, 2005: 243). Evidencia-se, assim mesmo, a marcação de ações posteriores com recursos verbais não pretéritos. O FF prototípico, descrito como tal na sua vertente semântica e na superfície linguística, é, de acordo com Miklič, o FF marcado (2008b: 299). 4 Quanto à desordem cronológica, os teóricos Adam e Lorda (1999: 134) sublinham que esta distorção temporal tampouco é exclusiva das narrativas literárias. Produz-se, segundo estes autores, também nos discursos quotidianos, para produzir um efeito de surpresa e despertar o interesse no interlocutor. 50 Quanto à marcação de ações posteriores a certo ponto da história ‘central’, Miklič (ibid.) verifica que o paradigma verbal futuro é utilizado em funções que diferem entre si. Assim, segundo esta autra, o paradigma verbal futuro ocorre, nas diferentes línguas, no primeiro lugar, para marcar as mais variadas ações, contudo, somente previstas, possíveis no futuro do autor ou no futuro do protagonista. Neste último caso, no futuro da personagem principal (protagonista), os paradigmas do futuro seriam utilizados no discurso indireto (neste caso, numa oração subordinada) ou discurso indireto livre (nes- te caso, não há oração subordinada, sendo este tipo de discurso o meio expressivo de inserir na diegese5 os discursos das personagens). Também ocorre para marcar, a partir do ponto do vista do narrador, as ações passadas concretizadas fora da história central. Para a autora, o paradigma verbal futuro ocorre, assim, no discurso indireto aparente. Usa-se também para marcar as ações passadas concretizadas, quando o narrador utiliza a estratégia do ‘discurso indireto aparente’. Trata-se da oração subordinada, introduzida com a negação da existência duma atividade mental (não saber, não pressentir, etc.). Assim, para sintetizar as propostas de Miklič (2005, 2008a, 2008b, 2012) para mar- car a estratégia narrativa ‘lo sguardo in avanti’, as línguas românicas empregam os meios linguísticos como são o futuro, o condicional, o futuro histórico e o presente histórico, os pretéritos e as perífrases românicas com os verbos de obrigação e os equi- valentes e o verbo ‘ir’ nas construções perifrásticas. Esta estratégia pode ainda ser encontrada - na análise da língua espanhola, nas pro- postas de Markič (1997), (1998a), (1998b) que a identifica a partir do estudo dos valo- res temporais, aspetuais e modais marcados pelas perífrases verbais temporais nos tex- tos narrativos, nomeadamente de Gabriel García Márquez (cf. e em Kalenić Ramšak, Markič, Pihler, e Šabec (2013)). 3 A PROLEPSE NO MEMORIAL DO CONVENTO: AS CARATERÍSTICAS DISCURSIVAS DA NARRATIVA EM TERMOS DA PROLEPSE É comummente aceite que que o tempo do discurso é revelado através da forma como o narrador narra os acontecimentos. No MdC, é evidente que o autor da narrativa ma- nipula o tempo no discurso narrativo através de uma série de procedimentos técnicos, ou seja, através de estratégias narrativas definidas a partir das relações entre o tempo e a história. Assim, no MdC, o narrador recorre a estratégias narrativas associadas a diferentes recursos como analepses e prolepses ou elipses, em que os resumos desen- volvem ‘ações’ em que os ‘abrandamentos’ e as ‘acelerações’ da narrativa fazem com o tempo não flua linearmente. Por essa razão, a cronologia não é seguida na ordem certa de ocorrências no tempo da história, mas sim na ordem escolhida pelo autor. Esta opção evidencia, enquanto forma de narrar as ocorrências, uma perspetiva distintiva de marcar o tempo da narração. É, portanto, através das prolepses, que, no MdC, o narrador antecipa os aconteci- mentos futuros que refletem o seu afastamento temporal da intriga. Esta estratégia vai 5 A diegese corresponde, em sistema platónico, ao relato puro (ver Reyes 1984: 77). Na concepção de Genette ([1972] 1995), diegese é o universo fictício. 51 ser caracterizadora de vários episódios presentes na obra, podendo aqui serem destaca- dos, entre outros, a narração do número de filhos bastardos do rei D. João V, a morte do sobrinho de Baltasar, a morte do infante D. Pedro, a morte da mãe de Baltasar, Marta Maria, a morte de Manuela Xavier e de Álvaro, o futuro de Bárbara (infanta recém- -nascida, que não será nunca rainha de Portugal, mas que se casará com Fernando, um rei espanhol.), entre outros. Se se considera que o tempo da história, nesta obra, é, num tempo futuro, o tempo do momento do ato de escrever, parece que as prolepses ser- vem para criar, por parte do narrador, uma visão globalizante de tempos distintos. São exemplo desta visão as alusões aos cravos que outrora estavam nas pontas das varas dos capelães e muito mais tarde serão símbolo da revolução de 25 de abril em Portugal. Um outro exemplo seriam a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de o ser humano, no século XX, ter ido à Lua, tal como há também referências ao tipo de diversões que se vivia no século XVII em contraste com o cinema (como diversão do século XX). 4 A ANÁLISE: A CONSTRUÇÃO LINGUÍSTICA DA ANACRONIA ASSOCIADA À PROLEPSE Nesta secção, com o intuito de contribuir para a descrição das caraterísticas do fun- cionamento referencial e discursivo do futuro simples do indicativo, o presente do in- dicativo, o futuro do conjuntivo e a construção haver de + infinitivo, apresentar-se-á a análise de oito sequências textuais que através das formas do futuro, evidenciam a construção linguística da anacronia associada à prolepse, entendida como uma das estratégias narrativas. 4.1 A prolepse marcada pelo futuro simples e o presente do indicativo na obra o MdC As sequências apresentadas a seguir evidenciam o recurso do narrador à estratégia nar- rativa prolepse marcada pelo futuro simples e o presente do indicativo: (1) […] ai o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas, os meninos de coro, a basílica de Santa Maria Maior, que é sombreiro, e tam- bém a basílica patriarcal, ambas de gomos alternados, brancos e vermelhos, se daqui a duzentos ou trezentos anos começam a chamar basílicas aos cha- péus-de-chuva, Tenho a minha basílica com uma vareta partida, Esqueci-me da minha basílica no autocarro, Mandei pôr um cabo novo na minha basíli- ca, Quando ficará pronta a minha basílica de Mafra, pensa el-rei que vem aí atrás a segurar a uma vara do pálio, mas antes passou o cabido, primeiro os cónegos diáconos de dalmática branca, […] (MdC, 161) (2) Cada qual tem sua contabilidade, seu razão e seu diário, escrituraram-se os mortos num lado da página, apuram-se os vivos do outro lado, também há modos diferentes de pagar e cobrar o imposto, com o dinheiro do sangue e o sangue do dinheiro, mas há quem prefira a oração, é o caso da rainha, devota parideira que veio ao mundo só para isso, ao todo dará seis filhos, mas de preces contam-se por milhões, […] (MdC, 115) 52 (3) O pavimento foi coberto de juncos e espadanas, e por cima estenderam-se panos verdes, já vem de muito longe, como se observa, este gosto português pelo verde e pelo encarnado, que, em vindo uma república, dará bandeira. (MdC, 139) Nas sequências narrativas/descritivas (1), (2) e (3) ocorrem várias formas do futuro simples do indicativo. Em (1), a forma do futuro simples em (i) e a forma do presente do indicativo em (ii), a forma que admite a interpretação prospectiva, referem, como marcas temporais, a construção de uma relação de posterioridade entre os acontecimentos marcados por elas e o ponto de referência que é, em ambos os casos, o tempo da enunciação narrativa: (i) […] ai o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas […] (ii) (ii) […] se daqui a duzentos ou trezentos anos começam a chamar basílicas aos chapéus-de-chuva, […] Além do seu valor temporal de posterioridade, as formas verbais tanto em (i) como em (ii) revelam o seu funcionamento discursivo em termos da construção lin- guística da estratégia narrativa prolepse. Assim, (i) e (ii) são partes da sequência narrativa que permite ser interpretada, através das formas verbais que nela ocorrem. Verifica-se, em (i) e (ii), que os acontecimentos narrados pelas formas do futuro sim- ples e do presente do indicativo, ou seja, meterão flores nos canos das espingardas e começam a chamar basílicas aos chapéus-de-chuva referem os acontecimentos já realizados o a partir do ponto de vista do narrador extradiegético-heterodiegético. No entanto, a partir do ponto de de vista do tempo da história narrada, ou seja, do tempo da narrativa, são narrados os acontecimentos previstos para ser concretizados no fu- turo. Do conjunto das formas do futuro que ocorrem em (1), importa destacar também a forma do futuro ficará pronta em (iii): (iii) Quando ficará pronta a minha basílica de Mafra, pensa el-rei […] Esta forma ficará pronta em (iii) não ocorre como forma marcadora de prolepse. Ao integrar uma oração interrogativa do discurso indireto desencadeia simultaneamente um valor temporal de posterioridade e um valor modal de natureza epistémica que, nes- te caso, indica uma incerteza, uma dúvida da voz da personagem da narrativa. Note-se que (ainda em (1)), parece ser evidente que as formas do presente do indicativo tenho e do pretérito perfeito simples esqueci-me, mandei são formas que participam com os seus respetivos valores temporais no discurso indireto livre de várias vozes narrativas, marcando o jogo da polifonia da narrativa. Em (2) e em (3), por sua vez, ocorrem as formas do futuro ao todo dará seis filhos e dará bandeira respetivamente. Em ambos os casos, as formas do futuro simples do indicativo marcam o valor temporal de posterioridade e, ao mesmo tempo, o valor 53 discursivo a partir da prolepse. Isto é feito ao referirem-se os acontecimentos linguísti- cos já realizados a partir do narrador e ainda não concretizados desde o ponto de vista do tempo da história narrada. Assim, tanto em (1) como em (2) e (3) é verificável que as formas do futuro analisadas ocorrem como marcadores da estratégia narrativa prolepse e como marcadores de uma temporalidade própria do texto narrado. Além disso, os três exemplos ajudam a perceber de que forma a prolepse se constitui como um instrumento interessante na análise da narrativa, sendo responsável pela mudança de perspetiva. Ou dito de outro modo: com a ativação deste percurso, passa-se da perspetiva do narrador para a perspetiva da personagem da narrativa. 4.2 A prolepse marcada pelo futuro do conjuntivo As sequências que se seguem mostram de que forma o narrador ativa a prolepse, recor- rendo, neste caso, ao futuro do conjuntivo: (4) Ao outro dia, aí pelas onze horase, bateu à portaria do convento um estu- dante, cujo convém dizer logo que desde há tempos andava pretendendo o hábito da casa, frequentando com grande assiduidade os frades dela, e esta informação se dá, primeiro, por ser verdadeira e sempre servir a verdade para alguma coisa, e, segundo, para auxiliar quem se dedique a decifrar actos cruzados, ou palavras cruzadas quando as houver, enfim, bateu o estudante à portaria e disse que queria calar ao prelado. (MdC, 23) (5) De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, [...] Quando o caseiro aqui entrar, verá a manta dobrada, como sinal de agradecimento, e sendo homem faceto perguntará aos bois, Digam-me cá, houve missa esta noite, e eles virarão as cabeças mal armadas, sem surpresa, os homens sempre têm alguma coisa para dizer, e às vezes acertam, este foi o caso, que entre o amor dos que ali dormiram e a santa missa não há dife- rença nenhuma, ou, se a houvesse, a missa perderia. (MdC, 145) (6) […] de el-rei não falemos, que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mostei- ros e as vai emprenhando, uma após outra, ou várias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, […] (MdC, 95) Nas sequências (4), (5) e (6), a narração não engloba ação principal, constituindo diferentes linhas de ação que se articulam dentro da ação principal através de uma su- cessividade de encaixes. Nas sequências (4), (5) e (6) ocorrem, entre outras, também as formas verbais do futuro nas orações temporais introduzidas pelo adverbial quando: (i) ... palavras cruzadas quando as houver 54 (ii) Quando o caseiro aqui entrar, verá a manta dobrada, como sinal de agra- decimento, e sendo homem faceto perguntará aos bois, Digam-me cá, houve missa esta noite, e eles virarão as cabeças mal armadas (iii) ... que quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados As formas houver, entrar, acabar no futuro do conjuntivo enquanto marcas tem- porais, constroem um valor associado a uma informação temporal de futuro. O tempo da oração temporal, introduzida pelo adjunto adverbial temporal quando, é posterior ao tempo da enunciação da narrativa, constituindo-se como ponto de referência neste exemplo. Por esta razão, a situação temporal marcada pelo verbo no futuro do conjun- tivo corresponde à construção de uma relação de posterioridade entre ela e o ponto de referência que é o tempo da enunciação. Os futuros do conjuntivo que ocorrem nessas sequências coocorrem com as formas de futuro simples - verá, perguntará, virarão, ou composto - hão-de contar – núcleos verbais das orações principais. Estas formas garantem, assim, a informação temporal do futuro. Em termos gerais, poderemos dizer que as formas do futuro em orações tempo- rais, tal como as que ocorrem em (4), (5) e (6), além de marcarem o valor temporal do futuro, desempenham ainda um papel discursivo, contribuindo para a criação do tempo do discurso autônomo, valor este desencadeado pela estratégia de prolepse. Nestas sequências, pode observar-se as marcas de anacronia, através de uma altera- ção da ordem dos eventos da história, que funciona como uma rutura na cronologia da história do MdC. Se se considerar a ordem temporal da narrativa, verifica-se que, nas sequências em causa, a ordem da narrativa é confrontada com a rutura na dispo- sição dos acontecimentos/segmentos temporais presentes no discurso narrativo e a ordem de sucessão desses mesmos acontecimentos/segmentos temporais no tempo da história narrada ou tempo da narrativa. Assim, as formas do futuro são marcadoras de acontecimentos passados e já realizados (do ponto de vista do narrador extradie- gético-heterodiegético), no entanto, a partir do ponto de vista do tempo da história narrada, ou seja, do tempo da narrativa, são acontecimentos projetados (previstos), que serão apenas validados num tempo posterior ao da enunciação (futuro). Os acon- tecimentos narrados (i) palavras cruzadas quando as houver; (ii) Quando [...] entrar, verá a manta dobrada, [...] perguntará aos bois, [...] e eles virarão as cabeças [...]; (iii) que quando acabar [...]se hão-de contar por dezenas os filhos [...] são realiza- das fora do foco narrativo, fora da ação principal da narrativa. Em (i), (ii) e (iii) e nos contornos destas sequências narrativas é de considerar a oposição, foco versus periferia narrativa. 4.3 A prolepse marcada pela construção haver de + infinitivo As sequências que a seguir se apresentam evidenciam o recurso do narrador à estratégia narrativa prolepse marcada pela construção haver de + infinitivo. 55 (7) […] quando Adão e Eva foram criados, tanto sabia um como sabia outro, e quando os expulsaram do paraíso, não consta que tenham recebido do arcan- jo uma lista de trabalhos de homem e trabalhos de mulher, a esta só foi dito, Parirás com dor, mas até isso há-de acabar um dia. (MdC, 238) (8) Ao outro dia vieram a festejar a chegada, e a conhecer a nova parenta, Inês Antónia, irmã de Baltasar, e o marido, que afinal se chama Álvaro Diogo. Trouxeram os filhos, um de quatro anos, outro de dois, só o mais velho vingará, porque ao outro hão-de levá-lo as bexigas antes de passados três meses. (MdC, 109) Em (7) e em (8), pode observar-se a ocorrência de prolepse, resultante da cons- trução haver de + infinitivo, a forma que se aponta, em português, como uma das formas mais usada como substitutos do futuro do presente simples, ou seja, haver de + infinitivo funciona como uma alternativa ao uso temporal das formas de futuro em Português Europeu Contemporâneo. Em termos gerais, e seguindo de perto (Oliveira 2013: 526), poder-se-á dizer que esta perífrase veicula a ideia de futuridade sem que seja necessário recorrer-se nem aos adjuntos adverbiais nem a um contexto alargado, mecanismos necessários quando se usa o futuro sintético. À perífrase haver de + infi- nitivo alia-se, assim, a uma leitura temporal de futuro. É importante ainda referir que a esta perífrase podem estar associados valores intrinsecamente, designadamente na construção de valores deônticos de obrigação – exprimindo-se, neste caso, (e ainda segundo Oliveira & Mendes 2013:650) uma ordem atenuada ou uma sugestão. Se se considerar o tempo verbal em que ocorre esta construção, e seguindo as mesmas auto- ras, importa sublinhar que existe uma diferença entre o uso desta perífrase, em portu- guês, no presente e no imperfeito do indicativo. Assim, quando haver de + infinitivo está no presente do indicativo, pode haver uma leitura preferencialmente temporal, em detrimento de uma leitura modal6. Esta possibilidade ajuda-nos a compreender a sequência exemplificada em (7): mas até isso há-de acabar um dia, ou em (8): hão-de levá-lo . Em qualquer um dos casos, a prolepse desencadeia uma preferência sobre uma leitura temporal, sendo igualmente recuperado o valor modal que lhe é subjacen- te. Neste caso o valor deôntico constrói um forte matiz de certeza e de inevitabilidade sobre alguma coisa que vai acontecer. 5 CONCLUSÃO Recorreu-se, na primeira secção do presente artigo, de modo não exaustivo, a alguns aspetos das propostas, teoricamente relevantes, e que estão associadas aos conceitos 6 No imperfeito do indicativo, inversamente, segundo Oliveira e Mendes (2013: 651) atenua-se a leitura temporal e sobressai a leitura deôntica. Assim, haver (de) marca o valor modal deôntico da situação, só que uma obrigação mais fraca, »[...] menos como uma obrigação forte e mais como um conselho, uma sugestão ou uma ordem dada delicadamente, como em tu havias de verificar se a janela veda bem« (ibid.). 56 de temporalidade e de anacronias dentro da narrativa. No momento seguinte, discuti- ram-se algumas linhas que caracterizam, discursivamente, o romance MdC, dando-se relevo a algumas sequências analisadas em que ocorrem as formas e construções que, em português, marcam a referência do futuro, nomeadamente o futuro simples do in- dicativo, o presente do indicativo, o futuro do conjuntivo e a construção haver de + infinitivo. A análise da definição dos papéis referenciais e discursivos desencadeados por estas formas e construções verbais constituiu o objeto de reflexão no ponto seguinte do trabalho. Apresentaram-se, assim, oito sequências textuais que através das formas do futuro evidenciam a construção linguística da estratégia narrativa prolepse. Parece-nos lícito concluir que, com esta proposta de análise, foi mostrado que as formas do futuro em sequências analisadas, além de marcarem o valor temporal de posterioridade ou valores modais, necessariamente associados a estas formas, podem desempenhar um papel discursivo relevante para a criação dum tempo do discurso au- tónomo, enquanto marcador da estratégia narrativa de prolepse. Esta estratégia é evi- denciada como o caso de anacronia, ou seja, como desencadeadora de uma alteração da ordem dos acontecimentos da história, isto é, de uma rutura na cronologia da história narrada. Através da análise aqui apresentada pode verificar-se que as formas do futuro em questão podem marcar acontecimentos passados, vistos a partir da perspectiva do nar- rador extradiegético-heterodiegético. No entanto, se se considerar o ponto de vista do tempo da história narrada, ou seja, do tempo da narrativa, estes acontecimentos são in- terpretados como previstos, projetados no futuro, no tempo cronológico da sua realiza- ção. Em todas as sequências analisadas, os acontecimentos narrados marcados com as formas do futuro, são realizados fora do foco narrativo, ou seja, fora da ação principal da narrativa. Neste trabalho pretendeu-se ainda mostrar que a prolepse, marcada pelas formas do futuro, caracteriza-se por ser uma das estratégias narrativas que permite a construção de uma outra perspetiva – a perspetiva do narrador – em detrimento da perspectiva veiculada pela personagem da narrativa. Em certo sentido – e através de recursos es- tilísticos e textuais como as advertências, os anúncios (de acontecimentos futuros), ou por outras palavras, as diferentes formas como são construídos os acontecimentos nar- rados, tornam relevante por que razão esta estratégia narrativa – prolepse – é intrínseca ao plano do narrador e não ao plano da personagem (herói) que integra as histórias. Todas as formas da prolepse, como se pode observar em todas as sequências analisadas, excedem sempre as capacidades do conhecimento do herói. Em certo sentido é sobre esta dialética que pode ser compreendido de uma forma menos linear a obra MdC que serviu de suporte e motivação a este trabalho. Literatura ADAM, Jean-Michel/Clara-Ubaldina LORDA (1999) Lingüistica de los textos narra- tivos. Barcelona: Ariel. GENETTE, Gérard (1972) Figures III. Paris: Éditions du Seuil. GENETTE, Gérard (1995) Discurso da Narrativa. Lisboa: Vega. 57 KALENIĆ RAMŠAK, Branka/Jasmina MARKIČ/Barbara PIHLER/Maja ŠABEC (2013) Hispanistična razpotja: Rojas, Cervantes, Machado, García Márquez, Ljubljana: Filozofska fakulteta. MARKIČ, Jasmina (1997) Aspektualne vrednosti v sodobni ameriški španščini v delih kolumbijskega pisatelja Gabriela Garcíe Márqueza. [Tese de doutoramento.] Lju- bljana: Filozofska fakulteta. MARKIČ, Jasmina (1998a) «Perspectivas temporales y aspectuales en las obras narra- tivas de Gabriel García Márquez.» Linguistica 38/2, 131-148. MARKIČ, Jasmina (1998b) «Los valores aspectuales en el español moderno de Améri- ca en las obras del escritor colombiano Gabriel García Márquez.» Verba Hispanica 7, 47-88. MARKIČ, Jasmina (2012) «Vloga glagolske perifraze haber de + nedoločnik v časovni strukturi romana Sto let samote.» Ars & Humanitas 6/2, 63-72. MIKLIČ, Tjaša (2005) «Flash-forward in italiano: aspetti concettuali e moduli espressi- vi.» Linguistica XLV, 239-258. 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Stuttgart: Klett. 58 Resumo PROLEPSE: O FUNCIONAMENTO REFERENCIAL E DISCURSIVO DE AL- GUNS PARADIGMAS VERBAIS EM PORTUGUÊS EUROPEU Este trabalho visa analisar o funcionamento referencial e discursivo das formas de futuro do indicativo, presente do indicativo, futuro do conjuntivo e da construção perifrástica haver de + infinitivo no texto narrativo Memorial do Convento e procura confirmar a hipótese de que estas formas verbais, em português europeu, podem, para além das suas diversas funções referenciais, ou seja, temporais e modais, desempe- nhar alguns papéis discursivos que contribuem para a criação de um tempo discursivo autónomo, inclusive marcando a estratégia narrativa de prolepse, ou seja, o meca- nismo narrativo que consiste em contar ou evocar de antemão um acontecimento ulterior. Ainda se queria mostrar, neste trabalho, que os acontecimentos narrados e marcados pelas formas do futuro, são realizados fora do foco narrativo, ou seja, fora da ação principal da narrativa. Assim, a análise confirma também a hipótese de que a prolepse, marcada pelo futuro do indicativo, presente do indicativo, futuro do conjun- tivo e a perífrase verbal haver de + infinitivo, é uma estratégia narrativa que permite a construção de uma outra perspetiva – a perspetiva do narrador – em detrimento da perspetiva veiculada pela personagem da narrativa. Palavras-chave: Português Europeu, prolepse, futuro do indicativo, presente do in- dicativo, futuro do conjuntivo, perífrase verbal haver de + infinitivo, funcionamento referencial e discursivo Summary ‘FLASH FORWARD’: THE REFERENTIAL AND DISCURSIVE OPERATION OF CERTAIN VERBAL PARADIGMS IN EUROPEAN PORTUGUESE This contribution analyses the referential and the discursive function of the future indicative, present indicative, future subjunctive and the periphrastic future construc- tion haver de + infinitive in the narrative text Memorial do Convento (MdC) and seeks to confirm the hypothesis that these verbal forms in European Portuguese can, in addition to their various temporal and modal functions, have certain discursive roles that contribute to the creation of an autonomous discourse time of narration, including performing the narrative strategy of ‘flash forward’. However, such a nar- rative and discourse function only presents the perspective of an omniscient third person narrator. It can thus further be argued that all such events expressed by the verbal forms in question are realized outside the focus of the narrative or outside of the lead story action. The analysis also confirms the hypothesis that the ‘flash for- ward’, marked by the future indicative, the present indicative, the future subjunctive and the verbal periphrasis haver de + infinitive is a narrative strategy that seems to 59 present another perspective in the narrative, that is the narrator’s perspective as op- posed to that of the protagonist of the story. Keywords: European Portuguese, ‘flash forward’, future indicative, present indicative, future subjunctive, verbal periphrasis haver de + infinitive, reference and discursive functioning Povzetek PROLEPSA: REFERENČNO IN DISKURZIVNO DELOVANJE NEKATERIH GLAGOLSKIH PARADIGEM V EVROPSKI PORTUGALŠČINI Analiza tako referenčnega kot diskurzivnega delovanja nekaterih glagolskih oblik in glagolskih struktur v evropski portugalščini v pripovednem besedilu Memorial do Con- vento (MdC) skuša potrditi uvodoma zastavljeno hipotezo, da nesestavljeni prihodnjik v indikativu, sedanjik v indikativu, prihodnjik v konjunktivu in glagolska perifraza ha- ver de + nedoločnik lahko opravljajo, poleg označevanja časovne vrednosti prihodno- sti/zadobnosti in modalne vrednosti možnosti ter nedejanskosti, določene diskurzivne vloge, s katerimi prispevajo k oblikovanju avtonomnega diskurzivnega časa pripove- di. Analiza pojavitev teh glagolski paradigem v osmih sekvencah MdC pokaže, da te lahko signalizirajo pripovedno strategijo prolepsa ali ‘pogled naprej’, ki se izkaže kot primer anahronije, z drugimi besedami, kot premena/zamenjava v redu dogodkov, ki si sledijo v zgodbi oz. kot prelom v kronologiji pripovedovane zgodbe. Pomembna je tudi ugotovitev, da so vsi jezikovni dogodki, označeni z prihodnostnimi glagolskimi paradigmami, uresničeni izven fokusa pripovedi oz. izven vodilne akcije pripovedi. Analiza sekvenc pokaže tudi, da je pojavitev analiziranih paradigem z diskurzivno vlo- go označevanja prolepse znamenje, da se je pripoved usmerila v sedanjostno sfero pri- povedovalca, torej v trenutek pripovedovanja. Ključne besede: evropska portugalščina, prolepsa, nesestavljeni prihodnjik v indikati- vu, sedanjik v indikativu, prihodnjik v konjunktivu, haver de + nedoločnik, referenci- alno in diskurzivno delovanje