183 Blažka Müller DOI: 10.4312/linguistica.62.1-2.183-189 Universidade de Ljubljana blazka.muller@ff.uni-lj.si OS VALORES REFERENCIAS E DISCURSIVOS DE HAVER DE + INF EM PORTUGUÊS EUROPEU E OS SEUS EQUIVALENTES EM ESLOVENO 1 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Neste artigo, tendo como base o texto o Memorial do Convento (MdC) de José Sa- ramago e a tradução para o esloveno Zapis o samostanu (ZoS), visa-se apresentar as caraterísticas do funcionamento tanto referencial como discursivo das formas da cons- trução verbal HAVER de + infinitivo, em português europeu (pt), em contraste com os recursos linguísticos que constroem os mesmos valores em esloveno (esl). Tendo como objetivo contribuir para a descrição contrastiva dos valores temporais, modais e discursivos que as formas das duas línguas evidenciam, pretende-se mostrar que as formas de HAVER de + infinitivo e os meios linguísticos que em esloveno des- encadeiam os mesmos valores participam, dentro da narrativa, como marcas autónomas da temporalidade do texto. A hipótese de análise apresentada neste artigo assenta nos princípios associados aos conceitos de temporalidade e de enunciação no discurso da narrativa, a partir de, e.o., Genette (1972), Fleischman (1990), Adam (1992), Adam e Lorda (1999), Coutinho (2003), Miklič (2005), Markič (2012) e também na consideração de que as formas de HAVER de + infinitivo podem ser responsáveis pela construção de processos discursi- vos específicos. Metodologicamente procurar-se-á, em primeiro lugar, definir as principais ca- raterísticas das sequências textuais identificadas no texto de Saramago, seguindo um percurso de análise que dê conta do tipo da sequência textual em que HAVER de + infinitivo ocorre. Assim, pretende-se definir o tipo de narrador implicado nes- sa sequência, dar conta das posições possíveis do narrador e definir as estratégias que realizam o tempo do discurso (encadeamento linear, analepse, prolepse). Em segundo lugar, procurar-se-á identificar e descrever, nas sequências individualiza- das, o funcionamento referencial das formas de HAVER de + infinitivo, visar-se-á identificar e descrever os valores discursivos, desencadeados pelas mesmas formas nas sequências em análise e pôr em evidência quais os recursos linguísticos que constroem os mesmos valores em esloveno, descrevendo-as sob o ponto de vista, tanto referencial como discursivo. Linguistica_2022_2_FINAL.indd 183 5. 01. 2023 07:29:23 184 2 HAVER DE + INFINITIVO E A CONSTRUÇÃO DE PROCESSOS TEXTUAIS ESPECÍFICOS Pressupõe-se, que o agenciamento das formas gramaticais de HAVER de + infinitivo marcador de futuro/posterioridade e de vários valores modais, ganha relevância quan- do, para além dos valores referenciais decorrentes das categorias tempo, modo(alidade) e aspeto desencadeiam novos valores, inerentes às particularidades dos textos. Assim, pretende-se mostrar, neste artigo, que as formas de HAVER de + infinitivo e as equi- valências em esloveno, podem ser, no seu agenciamento discursivo, responsáveis pela construção de processos textuais específicos, ou seja, estratégias narrativas específicas. Assim, analisar-se-ão, neste artigo, os papéis discursivos desencadeados pelas formas de HAVER de + infinitivo e pelas equivalências em esloveno em sequências textuais que através destas formas evidenciam a construção linguística de três tipos das estra- tégias narrativas: (i) anacronias, associadas às prolepses; (ii) passagem da narração ao comentário; (iii) passagem da narração ao apelo. A primeira estratégia está relacionada com a temporalidade discursiva, as duas últimas estratégias com as variações da enun- ciação narrativa. 2.1 Prolepse A sequência textual (a) pode ser identificada como sequência narrativo descritiva. (a) (pt) […] de el-rei não falemos, que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mosteiros e as vai empren- hando, uma após outra, ou várias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, […] (MdC, 95) (esl) […] da o kralju sploh ne govorim, ta je še mlad, ljubi igrarije, zato ščiti patra, zato se v samostanih zabava z nunami in oplujuje eno za drugo ali več hkrati, ko bo njegova zgodba pri kraju, mora računati z ducati tako spočetih potomcev, uboga kraljica, […] (ZoS, 70) Como é evidente, em (a) ocorrem as formas verbais do futuro nas orações temporais introduzidas pelos adverbiais temporais quando (pt) / ko (esl). O tempo da oração tem- poral (quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arran- jados, […] (pt), ko bo njegova zgodba pri kraju, mora računati z ducati tako spočetih potomcev, […] (esl)), é posterior ao tempo da enunciação narrativa, ponto de referência neste exemplo. As formas hão-de contar (pt) / mora računati (es), em orações princi- pais, veiculam a informação temporal do futuro, pois, a perífrase HAVER de + infiniti- vo, em português, é aliada a uma leitura temporal de futuro. Porém, também se associa a várias leituras modais, designadamente a uma leitura deôntica de obrigação em que se marca uma ordem atenuada ou uma sugestão (Oliveira e Mendes, 2013: 650). Foi provavelmente esta a razão, ou seja, o valor deôntico que subjaz à hão-de contar, que, na tradução para esloveno, motivou a escolha do verbo morati, o verbo modal que denota obrigação. A forma mora računati (esl) (tem que contar (pt)) é a forma do Linguistica_2022_2_FINAL.indd 184 5. 01. 2023 07:29:23 185 presente e marca, neste caso, o futuro. Em (a), HAVER de + infinitivo está no presente do indicativo e parece, tal como explicita Oliveira (2013: 526), que a leitura modal não sobressai relativamente à leitura temporal de futuro. Assim, julga-se, que mas até isso há-de acabar um dia, permite, dentro da estratégia narrativa prolepse, uma leitura tanto temporal como modal, deôntica com um forte matiz de certeza, inevitabilidade. Se se tiver em conta, em (a), o funcionamento discursivo da forma de HAVER de + infinitivo, note-se que a sequência (a) evidencia o recurso do narrador à estratégia narrativa prolepse marcada pela construção HAVER de + infinitivo. Assim, as formas hão-de contar (pt) / mora računati (esl) em (a), além de marcarem o valor temporal do futuro, desempenham o papel discursivo e contribuem para a criação dum tempo do discurso autónomo, marcando a estratégia narrativa de prolepse (e. g., Miklič, 2005: 570-61). Tendo em conta a sequência textual (a), pode-se verificar o caso de anacronia (Genette [1972] 1975: 34), uma alteração da ordem dos eventos da história, uma rutura na cronologia da história do MdC. Assim, se se considerar a ordem temporal da narrati- va, evidencia-se, na sequência que está em causa, que dita ordem está confrontada com uma rutura na disposição dos acontecimentos/segmentos temporais no discurso narra- tivo com a ordem da sucessão desses mesmos acontecimentos/segmentos temporais no tempo da história narrada ou tempo da narrativa. As formas hão-de contar (pt)/ mora računati (esl) em (a), assim, marcam aconte- cimentos passados realizados do ponto de vista do narrador extradiegético-heterodie- gético, no entanto, de o ponto de vista do tempo da história narrada, ou seja, do tempo da narrativa, são ainda os acontecimentos previstos para ser concretizados no futuro. A prolepse é uma manifestação evidente de uma nova perspetiva na narrativa, perspetiva do narrador e não da personagem da narrativa: as advertências, os anúncios, ou seja, os acontecimentos narrados da estratégia narrativa prolepse não podem pertencer ao âmbito do herói, mas sim ao âmbito do narrador. Todas as formas da prolepse, como se atesta também em (a), excedem sempre as capacidades do conhecimento do herói, os acontecimentos narrados quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados, […] (pt) / ko bo njegova zgodba pri kraju, mora računati z ducati tako spočetih potomcev, […] (esl) são realizadas fora do foco narrativo, fora da ação principal da narrativa. Evidencia-se, então, o recurso do narrador à estratégia narrativa prolepse pela construção HAVER de + infinitivo, em português, e pelo recurso linguístico devidamente contextualizado, em esloveno, mora računati. 2.2 Comentário A sequência (b), apresentada a seguir, evidencia o recurso do narrador à estratégia narrativa comentário e, em português, inclui a forma de HAVER de + infinitivo. A passagem da narração ao comentário é uma variação enunciativa que serve para exibir reflexões do narrador sobre o narrado. Neste mecanismo narrativo, seguindo Genette ([1972] 1995 : 25), deparamos com as reflexões sobre coisa-contada ou a ‘historia’ como significado ou conteúdo narrativo e não com as reflexões sobre a narrativa pro- priamente dita como significante ou enunciado, discurso ou texto narrativo em si. Neste contexto, note-se que a história, narrativa e narração são, níveis de consideração de um Linguistica_2022_2_FINAL.indd 185 5. 01. 2023 07:29:23 186 mesmo objeto a que Genette chama a ‘realidade narrativa’ (ibid.). Se se considerar as propostas de Fleischman (1990), afirma-se que os comentários são realizados desde fora da diegese, percebida como relato puro, como mundo fictício criado por um narra- dor alheio à personagem da história. Os comentários pertencem ao âmbito do narrador porque excedem as capacidades do conhecimento do herói. (b) (pt) Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido […] (MdC, 54) (esl) Ledene so se zdele nemara Blimundine besede tistemu, ki je stal poleg nje, Tam gre moja mati. Nobenega vzdiha, nobene solze niti obžalovanja na obrazu[…] (ZoS, 41) Como se pode verificar em (b), na estratégia narrativa comentário, pode ocorrer também a forma de HAVER de + infinitivo que nela atua referencialmente, textual- mente e expressivamente (Fleischman 1990: 6-7)1. Em (b), desempenhando o seu papel referencial, a forma de HAVER de + infinitivo fornece a referência modal de probabilidade, ao funcionar textualmente participa na estratégia narrativa comen- tário, ao atuar expressivamente, comunica avaliações. Mais especificamente, em (b), o narrador extradiegético-heterodiegético, em português e em esloveno, exibe um comentário sobre as palavras de Blimunda, proferidas no auto-de-fé com a procissão no Rossio. Neste comentário, em português, ocorre a forma hão-de ter parecido (pt) que desencadeia um valor modal epistémico de incerteza, probabilidade ou não com- prometimento da parte do enunciador sobre a situação descrita. Em (b), hão-de ter parecido (pt) não veicula qualquer informação de tempo futuro, quer relativamente à enunciação, quer relativamente ao tempo de referência, neste caso, passado. Em esloveno, aliás, optou-se na tradução pela construção em pretérito so se zdele do verbo zdeti se (esl) – parecer (pt) que talvez não veicule nenhum valor modal, aliás, o modal epistémico de incerteza, probabilidade ou não comprometimento da parte do enunciador sobre a situação descrita acarreta o advérbio modal nemara, que equivale, em português, a talvez, provavelmente. 2.3 Apelo A sequência (c) evidencia o recurso do narrador à estratégia narrativa apelo. Apelo é o dispositivo narrativo que está associado à ‘emergência’ da voz narrativa, ou seja, do na- rrador. Evidencia-se, em sequência (c), que o apelo enquanto estratégia narrativa pode ser marcado também pela forma de HAVER de + infinitivo, embora se possa verificar, 1 Uma das principais reivindicações da obra de Fleischman (1990) é que as funções das categorias de aspecto e tempo na narrativa não estão limitadas aos significados referenciais fundamentais. Pelo con- trário, como refere a autora, o tempo e o aspeto são bastante úteis nos componentes pragmáticos (tex- tual e expressivo) e metalinguísticos. Ademais, as funções de tempo e aspeto, exclusivas à narrativa, são especificamente funções pragmáticas. Fleischman (1990: 6-7), assim, propõe a categorização das funções de aspecto e tempo que são, segundo a autora, referencial, textual, expressiva e metalinguística. Linguistica_2022_2_FINAL.indd 186 5. 01. 2023 07:29:23 187 na mesma sequência observada, que o modo verbal que prevalece nesta estratégia na- rrativa é o imperativo. (c) (pt) […] enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passan- do el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António, é o teu rei quem passa, papagaio real que vai à caça, vê que majestade, que presença incomparável, que gracioso e severo semblante, assim Deus estará no céu, não duvides, ai João Elvas, João Elvas, por muitos anos que ainda tenhas para viver nunca hás de esquecer este momento de felicidade per- feita, quando viste D. João V passando no seu coche, estando tu de joelhos ao pé destas piteiras, guarda bem na memória estas imagens, […] (MdC, 315) (esl) […] zdaj, João Elvas, na kolena, zdaj se pelje mimo kralj s princem, dom João z infantom dom Antóniem, tvoj kralj, ki se pelje mimo, ti po nedolžnem nevedni človek, poglej, kakšno veličastje, kakšna neprimerljiva pojava, kakšno očarljivo in strogo oblič- je, takšen mora biti bog v nebesih, ne dvomi o tem, ti, João Elvas, dokler boš stopal po zemlji, João Elvas, nikoli ne pozabi na ta trenutek popolne sreče, kako si klečal poleg agav, ko se je mimo tebe peljal kralj v svoji kočiji, […] (ZoS, 231) Em (c), o apelo do narrador, temporalmente ancorado no tempo da narração, está diri- gido a ‘figurante’, ou seja, a personagem da narrativa, temporalmente situada no tempo da história, ou seja, no tempo da narrativa, marcado, nesta sequência pela forma do pretérito perfeito simples, em português (chegou (pt)) e pelo advérbio zdaj (esl) e em ambas as lín- guas em presente narrativo (estão passando (pt) / se pelje (esl)). O apelo é marcado pelas formas do conjuntivo / imperativo (põe, vê, não duvides (pt) / na kolena (omissão de cai), poglej, ne dvomi (esl)), associadas à interação discursiva entre o narrador e a personagem João Elvas. Em (c), a forma de HAVER de + infinitivo hás de esquecer (pt) funciona como marca temporal e modal. Como marca temporal localiza a situação descrita num tempo posterior ao da enunciação/escrita da narração, como marca modal marca um valor modal deôntico de obrigação e aproxima-se da força ilocutória do imperativo. Veicula, assim mesmo, um matiz expressivo profético de inevitabilidade, fatalidade. Reforça-se o carácter deôntico e a nuance expressiva com a presença do advérbio temporal nunca (pt) / nikoli (esl), em ambas as línguas. Em esloveno, em (c), assim, em lugar de nunca hás de esquecer (pt) aparece uma forma de imperativo nikoli ne pozabi (esl) que acarreta um valor modal deôntico de obrigação e a força ilocutória. 3 UMA NOTA FINAL Como foi mostrado nesta análise, as formas de HAVER de + infinitivo e as equivalên- cias em esloveno, podem ser, no seu agenciamento discursivo, responsáveis pela cons- trução de processos textuais específicos, ou seja, de anacronias, associadas às prolepses e de várias variações da enunciação narrativa, nomeadamente comentário e apelo. Oco- rrem em sequências textuais, como foi mostrado em todos os exemplos citados, que se revelam como manifestação evidente de uma nova perspetiva na narrativa, perspetiva do narrador. Estão associadas, então, à ‘emergência’ da voz narrativa (do narrador) e pertencem ao agora do narrador, ao âmbito do narrador. Linguistica_2022_2_FINAL.indd 187 5. 01. 2023 07:29:23 188 Fontes primárias SARAMAGO, José (392006 [1994]) Memorial do Convento. Lisboa: Caminho. SARAMAGO, José (1999) Zapis o samostanu. Trad. de Alenka Bole-Vrabec. Rado- vljica: Didakta. Bibliografia ADAM, Jean-Michel (32011 [1992]) Les textes: types et prototypes. Paris: Armand Colin. ADAM, Jean-Michel/Clara-Ubaldina LORDA (1999) Lingüistica de los textos narra- tivos. Barcelona: Ariel. COUTINHO, M. Antónia (2003) Texto(s) e competência textual. Lisboa: FCG/FCT. FLEISCHMAN, Suzanne (1990) Tense and Narrativity: From Medieval Performance to Modern Fiction. London: Routledge. GENETTE, Gérard (1972) Figures III. Paris: Éditions du Seuil. MARKIČ, Jasmina (2012) «Vloga glagolske perifraze haber de + nedoločnik časovni strukturi romana Sto let samote». Ars & Humanitas 6/2, 63-72. MIKLIČ, Tjaša (2008) «Raba prihodnjika za uresničena pretekla dejanja: retorični pri- jem ‘pogled naprej’ v slovenščini in v nekaterih drugih jezikih». JiS 53/1, 49-66. OLIVEIRA, Fátima (2013) «Tempo verbal». Em: Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva et al., Gramática do português. 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Tendo como objetivo contribuir para a descrição contrastiva dos valores temporais, modais e discursivos que as formas das duas línguas evidenciam, pretende-se mostrar que as formas de HAVER de + infinitivo e os meios linguísticos que em esloveno des- encadeiam os mesmos valores participam, dentro da narrativa, como marcas autónomas da temporalidade do texto, a construir (i) anacronias, associadas às prolepses; (ii) pas- sagem da narração ao comentário; (iii) passagem da narração ao apelo. Palavras chave: HAVER de + infinitivo, funcionamento referencial, funcionamento discursivo, estratégias narrativas, tempo do discurso autónomo Linguistica_2022_2_FINAL.indd 188 5. 01. 2023 07:29:23 189 Abstract THE REFERENCE AND DISCURSIVE VALUES OF HAVER DE + INFINITIVE IN EUROPEAN PORTUGUESE AND THEIR EQUIVALENTS IN SLOVENIAN In this article, using as a corpus the novel Memorial do Convento by José Saramago and its Slovene translation Zapis o samostanu, the aim is to analyse both the referential and discursive functions of the verbal construction HAVER de + infinitive in European Portuguese, in contrast to the linguistic resources that express the same meaning in Slovenian. The article aims to contribute to the contrastive description of the temporal, modal and discursive values that the corresponding forms of the two languages and to show that the various forms of HAVER de + infinitive and the corresponding linguistic re- sources in Slovenian function within the narrative as autonomous temporality markers which are used to express: (i) anachronies associated with prolepses, (ii) shifts from narration to commentary, and (iii) shifts from narration to appealing to the reader. Keywords: HAVER de + Infinitive, referential functioning, discursive functioning, narrative strategies, autonomous discourse time Povzetek REFERENČNE IN DISKURZIVNE VREDNOSTI STRUKTURE HAVER DE + INFINITIV V EVROPSKI PORTUGALŠČINI IN NJENE SLOVENSKE USTREZNICE V tem prispevku želimo na podlagi besedila Memorial do Convento Joséja Sarama- ga in prevoda v slovenščino Zapis o samostanu predstaviti nekatere značilnosti tako referenčnega kot diskurzivnega delovanja oblik glagolske konstrukcije HAVER de + infinitiv v evropski portugalščini in jezikovnih sredstev, ki označujejo iste vrednosti v slovenščini. Osnovno izhodišče prispevka je na kontrastiven način osvetliti časovne, modalne in diskurzivne vrednosti, ki jih označujejo določene oblike v obeh jezikih, hkrati pa pokazati, da oblike HAVER de + infinitiv in jezikovna sredstva, ki v slovenščini ozna- čujejo iste vrednosti, v pripovedi sodelujejo kot avtonomne oznake časovnosti pripo- vednega besedila, ki pa v besedilu izpričujejo nove vrednosti pri ustvarjanju različnih pripovednih strategij: (i) anahronije, povezane s prolepsami; (ii) prehod od pripovedi h komentarju; (iii) prehod od pripovedi k apelu. Ključne besede: HAVER de + infinitiv, referenčno delovanje, diskurzivno delovanje, pripovedne strategije, avtonomni diskurzivni čas Linguistica_2022_2_FINAL.indd 189 5. 01. 2023 07:29:23